~ Sexta-feira, Junho 19

Eu tenho quase certeza de que ela estava rabiscando. Sentada alí, na área comum do prédio de escritórios, ela passava os dias na singela pretensão de preencher um potinho que ficava no balcão, onde lia-se "pegue aqui a sua mensagem do dia". Sinceramente, se três pessoas pegavam um rolinho recheado de alguma citação clichê durante a semana inteira, era muito. Mas ela usava avental branco, todos os dias, e ficava alí, sentada em um banco próximo ao balcão, ora enrolando os papéizinhos com cuidado, ora conferindo o estado do pote, ora apenas observando as pessoas que passavam. Aquele dia, eu tenho certeza de que ela estava rabiscando sua agenda. Sabe? Pintando por dentro dos números e das letras vazadas.
Ela daria uma ótima personagem, eu pensei, alguém poderia escrever um livro ou um roteiro de filme só sobre ela, e a minuciosidade com que ela passava minutos rabiscando a agenda. Logicamente, ela estava tentando parecer fazer qualquer outra coisa. Tomava o cuidado de não apenas rabiscar, freneticamente; fazia pausas, observava, às vezes até ia conferir uma outra página. Acho que ela queria dizer ao mundo, ou só a si mesma, que estava organizando sua vida em meio a muitos compromissos, horários e citações (não tenho dúvidas de que haviam citações) alí naquelas páginas. Eu a vejo rabiscando, colorindo os números e o fundo oco das letras O, e ainda assim entendo como uma organização. Ela estava, de fato, organizando sua vida, ao completar as partes sem pintura que estavam fazendo falta.
Eu parei um pouco para observá-la. Eu a chamo de moça, mas ela já tem sua idade... talvez esteja na casa dos quarenta anos, embora os cabelos ainda estejam bem coloridos. Pra falar a verdade, eu não sei muito bem a partir de que idade os cabelos de uma mulher começam a embranquecer e também duvido que a vaidade feminina (mesmo em se tratando da moça das mensagens do dia) permita que o tempo simplesmente corra assim, pelos fios; não hoje em dia, com as tinturas baratas e diversas. De qualquer forma, acho que a moça das mensagens era calma, isso deve ter ajudado nos cabelos; e na pele também. Só não conseguia ter certeza, assim, observando-a, se era infeliz. Não a via feliz tampouco, mas entre a felicidade e a infelicidade há muitos outros estados de espírito que não se pode rotular. Ela estava aí no meio, eu acho.
Adivinhei que ela devia descontar sua periódica ansiedade em comida; muita gente faz isso, e ela realmente estava um pouco acima do peso (fato que o avental branco, que muitas vezes era usado com uma blusa comprida de listras horizontais por baixo, evidenciava). Não me pergunte por que afirmo isso com tanta convicção, excluindo muitas outras possibilidades fisiológicas ou mesmo genéticas que podem levar ao excesso de peso: eu apenas a estava observando. Percebi também, embora isso possa parecer indelicado, que ela não usava aliança; e eu tenho certeza de que a moça das mensagens, se fosse casada, ou simplesmente "compromissada"... ah, ela usaria a aliança.
Ela continuava rabiscando. Ela rabiscava com delicadeza, vale citar. A palavra rabiscando muitas vezes remete a um comportamento levemente violento. Não, a moça do pote de mensagens era calma.
Na verdade, eu acho que a moça do pote era sonhadora. Você sabe o tipo de pessoa sonhadora a que me refiro? Um sonho tão grande, um sonho além, um sonho que abrange os sonhos dos outros, a vida dos outros, e vai muito além dela, do seu avental, de sua agenda. Ela sonha tanto que, ninguém está percebendo, mas ela não está vendo a agenda e nem o pote de mensagens, em si. Eu acho que a moça das mensagens tem uma imensa esperança, para não dizer uma enorme necessidade, de que as citações de Ghandi e Freud e os provérbios chineses que ela passa tardes a enrolar perfeitamente e jogar no potinho para os outros, mudem a vida das pessoas que os lerem, como ela queria acreditar que eles mudassem a dela.
Eu me dirigi ao pote essa semana e a senti me observar, cautelosamente, por trás dos óculos que refletiam as luzes do prédio e muitas vezes camuflavam seus olhos. Ela apreciava esse momento a ponto de seu coração acelerar, mas era bastante sutil ao olhar pois tinha medo de intimidar alguém; intimidar as raras pessoas que não passavam às pressas e podiam desistir de pegar um pedacinho dela, alí naquele pote, caso percebessem que ela estava observando.

"A Felicidade depende das qualidades próprias do indivíduo e não do meio em que ele se acha"

Eu coloquei o papelzinho no bolso e sorri, olhando para ela. Na verdade, estava olhando para ela com o coração e não com os olhos de fato, pois acho que ela não queria ser flagrada naquele momento, assim, encontrando os olhares. A mensagem que li, em si, não foi motivo de mudar uma vida; mas acho que tanto eu quanto ela sabíamos, naquele momento, que a lição do pote foi a própria moça das mensagens, fui eu mesma, foi o prédio de escritórios... foi bem mais que um pedaço de papel enrolado.
(18/06/2009 ddbg)

- Daniela | às 8:28 PM



~ Segunda-feira, Junho 1

Essas crônicas aí são trabalho de português. Tô fazendo ok, cobro R$40,00 obrigada.

- Daniela | às 1:00 PM




A internet tem esse negócio de permitir quase tudo. Você tem uma idéia absurda, cria alguma coisa na rede e de repente o mundo inteiro está comentando sobre aquilo que, a princípio, foi apenas um devaneio na madrugada, e por fim virou um super portal ou um influente blog ou uma animação-lixo que ficou engraçada. Não importa, já foi dito no começo: a internet permite e dá iguais chances a todo tipo de conteúdo, até o que aparentemente não tem conteúdo ou não faz sentido nenhum.
Chegamos ao ponto. O último grande devaneio que aparentemente não faz sentido nenhum e está em ascenção é o portal chamado Twitter. "O QUÊ?" - você me pergunta, em tom de exclamação; e eu tento responder, na medida do possível, já que o devaneio foi longe: a palavra "twitter", seria uma derivação da palavra "tweet" que, em inglês, remete ao pio dos passarinhos. Sua próxima reação muito provavelmente é perguntar "Tá, e daí?", já em um tom menos surpreso, sabendo que depois dessa, não se pode esperar muita lógica na tal ferramenta virtual mesmo...
Eu continuo: se você experimentar acessar o portal através do endereço twitter.com, vai encontrar lá a pseudo-explicação de tudo, simples e direta, dizendo: "Twitter é um serviço para amigos, família, e colegas de trabalho se comunicarem e permanecerem conectados uns aos outros através de respostas rápidas e frequentes à simples questão: O que você está fazendo?". Tudo bem, agora você entendeu e não sabe se era pior não ter entendido nada e tudo parecer um mundo mágico a ser descoberto ou cair na realidade de que há tanta repercussão em torno de um portal que, sim, não tem quase nenhuma utilidade.
Os usuários dessa incrível ferramenta têm então, ao seu dispor, 140 caracteres por vez, para contar ao mundo "o que estão fazendo". É óbvio que ninguém quer saber o que as outras pessoas estão fazendo, pelo menos não o que pessoas "comuns" estão fazendo. Qual a graça de saber que a Chica acabou de comer um rocambole? Nenhuma. Eis que aí surgem twitters de celebridades, alguns autênticos, e muitos outros conhecidos como "fakes" (falsos). Ambos fazem bastante sucesso; isso quando o fake não faz mais sucesso que o autêntico por ser geralmente carregado de ironia e comentários cômicos.
A verdade é que, como quase tudo na internet, o twitter vira ferramenta de auto-afirmação e cresce por conta disso. Atrai inúmeros ansiosos por responder a simples questão "o que você está fazendo?" da forma mais criativa e espetacular possível, como se a vida fosse tudo que se sonha; além dos muitos sagazes por mostrar conhecimento sobre quase todos os assuntos, sempre seguidos de links interessantes para outros sites.
No fim de tudo, a grande verdade é que cada usuário é praticamente um solitário, já que ninguém quer ler o que os outros fazem, só querem mostrar o que estão fazendo. Mas deixa... é uma ilusão consciente. Como se ninguém tivesse percebido que responder, na rede, rápida e frequentemente à questão "o que você está fazendo?" não fosse uma das coisas mais sem utilidade que já existiu entre os grandes devaneios da internet.

- Daniela | às 12:59 PM



Daniela Del Ben Giradi



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