~ Terça-feira, Outubro 27

Fim

Ele estava folheando um livro, sem capturar palavra alguma. Fingia que sim, no entanto. Fingia demorar. No fundo, era só um pretexto para não se aproximar mais. Era uma ocupação temporária e, quase ignorando o movimento automático dos dedos, ele pensava mesmo era na inevitável atitude que teria de tomar quando não houvessem mais folhas a serem viradas. Tanto, que ao sentir que estava se esgotando o tempo (e as folhas), decidiu diminuir o ritmo. Aí sim pôde focar algumas palavras, completamente aleatórias e mesmo assim carregadas de sentido.

Não acredito em tal coisa como "destino" ou, diriam, uma "força maior" que direcionou o olhar para as palavras certas. Na verdade, nós (o que costumava ser "nós") temos uma poderosa tendência de contextualizar tudo ao nosso bem entender e, na verdade, aquelas palavras adquirem um significado muito mais mítico e simbólico do que o próprio autor do livro jamais poderia pretender, se for de "nossa" vontade atribuir tal significado à elas. Na verdade, nem eu, e nem ele, jamais saberemos se aquelas palavras realmente existiram.

Ela, no outro canto do sofá, fingia assistir à tv enquanto pensava quão típica era aquela cena. Quão típicos eram os homens. Quão típico ele havia se tornado. Pensava saber tudo que ele estava pensando; inclusive saber do medo que ele sentia, e que não o deixava parar de folhear. Achava que ele até seria capaz (assim, como se isso não desmascarasse todo o comportamento) de começar o livro do zero quando chegasse à contra capa. Fingindo ter perdido alguma coisa. Fingindo não saber o que perdeu, ou em que ponto se perdeu. Como se não soubesse que o livro era a imagem perfeita do que já não mais costumava ser "nós".

Tampouco acredito em metáforas, pobres analogias, buscando poesia quando se compara um relacionamento a um livro sendo folheado incessantemente. Não era nada disso, talvez, que eu buscava ver alí. Já não era mais na poesia que eu tentava a resposta. Nem mesmo beleza eu tentava, na poesia. Não mais. Essa coisa frouxa e abstrata que é a poesia; ela só alimenta os que ainda estão por aí flutuando, sonhando, sem chão, sem saber o que esperar. Só satisfaz os que ainda estão por si só, cheios de esperança e, principalmente, iludidos. Só enche de flores os que já estão floridos! Depois de anos, quando se suga todas as cores e cheiros das flores novas, nem essa medíocre metáfora serve mais. Fica tudo muito claro e o foco aqui está nas atitudes. São aqueles dedos folheando o livro, até o fim. Depois, aquelas mãos fechando todo o simbolismo e depositando ao seu lado esquerdo. Agora, aquele olhar já esperado e as palavras que se seguiriam.

Ele não começou frase nenhuma (e já era de se esperar) até ela mudar sua posição no sofá, recuando um pouco e esticando, em um movimento sutil, o pescoço. Voltava-se para ele. Era o sinal que ela tinha de fazer, e aí ele entender como "permissão" para começar. Era tudo mentira e isso nunca fora determinado, muito menos imposto. Era apenas um tipo de segurança que ele mesmo definira como hábito, como garantia. E ela, só seguia o esperado, à fim de facilitar as coisas; para os dois.
Ele perguntava o que havia sobrado. E não era nem à ela que ele fazia a pergunta. Perguntava o que havia sobrado, como se fosse fácil saber. Perguntava ainda, como se também não fosse tão óbvio saber. Sobrava pouco. Sobravam aproximadamente 857 fotos de duas pessoas que não existiam mais. Bem como alguns 638 objetos espalhados pelos cômodos, carros, paredes e box de banheiros que já não eram mais de uma pessoa só; mesmo que tivessem sido um dia. Sobravam 3512 dias de memórias que não poderiam ser apagadas. Sem contar os inumeráveis vínculos psicológicos, psiquiátricos e os fortíssimos espirituais que simplesmente enrraizaram-se, sem dar satisfação nenhuma, e agora não queriam mais sair do profundo vazio de cada um daqueles que um dia costumou ser "nós".
Sobra mesmo muito pouco, quando percebem-se até os números.

Não deixava de ser triste, no entanto. E é estupidamente óbvio eu dizer isso. Tornei-me tão óbvia que sinto-me estúpida. Tão lógica, tão clara, tão "sentencial" que cheguei a ficar com raiva dele. De nós. Daquele tempo todo e de como me transformei. De como estava sentada em um sofá perfeitamente analisado e posicionado em uma vida que não permitia espaço mais para dúvidas; muito menos para culpas; muito menos para erros; muito menos para o impulsivo e espontâneo que é feliz. Não deixava, no entanto, de ser muito triste.

Foram necessários alguns minutos para dar continuidade ao que os dois já haviam começado, quase sem querer. O inevitável começo do fim. Deve-se ser muito ingênuo para acreditar que o fim chega quando as coisas já estão terminadas; que simplesmente chega e se faz verdade. Não, foram necessários alguns minutos que podiam facilmente ser confundidos com anos, para encarar o fim. Eles já nem sabiam mais se na verdade não teriam confundido mesmo: alguns anos com intermináveis minutos. Minutos secos, sem sabor, preenchidos de uma fumaça que vez ou outra dava espaço para as mãos se encontrarem, mesmo que sem ternura. Para as mãos se abraçarem, mesmo que calosas. Para as mãos, roídas, ainda tentarem se amar, mesmo que fosse inútil.
Se dependesse das mãos, eles ainda levariam mais tempo.

Deve-se ficar atento às mãos, isso é uma verdade. Muitas pessoas insistem em ignorar que as mãos e os dedos têm vontades próprias. José Saramago já recheou um par de páginas de seu livro "A Caverna" só com considerações sobre a independência das mãos e a existência de pequenos cérebros nos dedos. É incrível. Deve-se também ficar muito atento às divagações, como essas de livros, mãos e dedos que nos tomam quando tentamos fugir do foco. Novamente; os livros, as mãos e os dedos.

Foi de um impulso. O ar estava tão parado que não havia outra coisa a fazer a não ser se levantar e encarar o vazio. Ela disse a palavra, tendo certeza que no segundo seguinte já não conseguiria se lembrar de como a palavra saiu:

Acabou.

Ele respondeu à palavra, sabendo que toda a situação já falava muito mais alto que qualquer coração. Que qualquer memória. Que todo e qualquer "não".

Sim, acabou.

Foi um último abraço e, antes de abrir a porta, eles nem tiveram tempo (ou coragem) de reparar nas mãos.
As mãos que ainda estavam apertadas.

- Daniela | às 4:53 AM



Daniela Del Ben Giradi



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